Filme mostra envolvimento da Volkswagen do Brasil nas torturas da Ditadura…Os dias eram assim, Dona Globo!

As promíscuas relações da então maior empresa privada da América Latina, a Volkswagen do Brasil – primeira filial fora da Alemanha, instalada em São Bernardo do Campo (SP), em 1959 – com a ditadura civil-militar instaurada no Brasil em 1964 vieram a público. Não tanto no Brasil, palco e alvo destas relações, mas com bastante repercussão na Alemanha. Lá, um canal público de TV lançou o documentário, que já tem versão em português: “Cúmplices? A Volkswagen e a ditadura militar no Brasil“.


A partir da saga de Lúcio Antônio Bellentani, operário da Volks e militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), que em 1972, aos 27 anos, foi preso às 23h30, na ferramentaria (Pavilhão 8) da fábrica de São Bernardo do Campo, o filme narra o envolvimento da empresa e seus diretores – notadamente o Departamento de Segurança Industrial, comandado por militares brasileiros -, com a repressão política.

Preocupada com as consequências destas revelações, a multinacional alemã contratou o historiador Christopher Kopper da Universidade de Bielefeld, para investigar tais relações. A surpresa maior é que antes de concluir seus trabalhos, Kopper, ao documentário, admitiu o que os antigos diretores da empresa tentam a todo custo negar:

Estou muito seguro sobre a segurança industrial da Volkswagen. Como a ditadura, ela usava quaisquer meios para perseguir comunistas em particular. Existia uma cooperação regular entre a segurança industrial da VW e as forças policiais do regime. Quando, por exemplo, no banheiro ou no vestiário, era encontrada uma publicação comunista proibida, a segurança industrial não se limitava a registrar isso. Ela denunciava à polícia política“, explica. (33m40′ do filme)

O documentário da TV alemã mostra o desinteresse da imprensa brasileira com a história contemporânea do Brasil. Sem demérito do trabalho dos jornalistas alemães Stefanie Dodt, Thomas Aders e Thilo Guschas, principalmente nas pesquisas junto à matriz da Volks, em Wolfsburg, muito do que o filme mostra foi apurado no Brasil.

Há algum tempo o IIEP (Intercâmbio, Informações, Estudos e Pesquisas), entidade criada por militantes de diversas organizações, em cooperação com a Comissão Nacional da Verdade (CNV), juntou dados e promoveu depoimentos de vítimas da Volks no Brasil que denunciaram as digitais dela na repressão política no Brasil.

A partir da coleta destas informações o IIEP representou junto ao Ministério Público Federal de São Paulo contra a Volkswagen gerando um inquérito civil (IC 1.34.001.006706/2015-26). Ele é presidido pelo Procurador Regional de Direitos do Cidadão, da Procuradoria da República de São Paulo, Pedro Antônio de Oliveira Machado. E tem a parceria da promotora de Justiça de Direitos Humanos/Inclusão Social do Ministério Público Estadual de São Paulo, Beatriz Helena Budin Fonseca. Os dois investigam se a Volks entregou seus empregados aos órgãos de repressão, que os torturaram. Os estudos e levantamentos feitos pelo IIEP demonstram que sim. O historiador Kopper também já se convenceu disso.

A própria Volks, ainda que diga que é preciso concluir o trabalho de Kopper, sabe que suas digitais foram encontradas nessa relação promíscua.

Seu antigo historiador, Manfred Grieger, que esteve no Brasil em 2014, ao admitir tais fatos, propôs que a empresa procurasse Bellentani e se dispusesse a construir um memorial como forma de reparar os danos e erros cometidos. Além de não lhe darem ouvido, tentaram limitar suas pesquisas às autorizadas pelo Conselho de Administração da empresa. Ele demitiu-se em 2016, mas por força do acerto na rescisão do contrato, está impedido de falar o que sabe.

Somente depois Kopper foi contratado. Este, como narra o documentário alemão, “de aparentemente inofensivo historiador, tornou-se um acusador”.

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